Aonde os sonhos podem chegar: Estudo de caso do polo de produção de vassouras de garrafas “pet” da Comunidade do Dendê

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Aonde os sonhos podem chegar: Estudo de caso do polo de produção de vassouras de garrafas “pet” da Comunidade do Dendê

Carlos Augusto Fernandes Eufrásio

Natália Fernandes Teixeira Alves

Ana Lorena Magalhães

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”  Eduardo Galeano

RESUMO

A preocupação com o tema da responsabilidade social fez incrementar novos conceitos e comportamentos que exigem da sociedade o dever de participar do processo de  desenvolvimento  social, humano, econômico, político, cultural de ambiental. O combate  às desigualdades  sociais e ao abismo cultural que divide os cidadãos, a promoção do desenvolvimento e do bem-estar humano não são tarefas  exclusivas do Estado, elas perpassam todas as Instituições. A construção de uma sociedade mais justa, equânime e fraterna torna-se compromisso individual e da coletividade. Nesse contexto social encontram-se as Universidades, formadoras de novos saberes e  comprometida com a responsabilidade social. Nesta investigação, procurou-se  dar um contributo para melhor entendimento sobre as questões de como as Universidades, por meio da responsabilidade social, têm contribuído  na formação do capital humano, na construção do capital social e ainda como podem causar impacto no desenvolvimento local sustentável.

PALAVRAS-CHAVE: Responsabilidade Social das Universidades. Desenvolvimento local sustentável. Realização de sonhos individuais e coletivos.

ABSTRACT

Concerns about the corporate social responsibility led to an increasing number of new concepts and behaviors that require the society to participate in the social, human, economic, political, cultural and  environmental development process. The struggle against social inequalities and cultural chasm that divides citizens, promoting devolopment and welfare of human beings, is not exclusive of the State, such srtruggle permeates the all institutions. Building a fairer society, equal and fraternal, becomes an individual and collective commitment. In this social context are the Universities, forming new knowledge, forging social responsability.  In this investigation, we have tried to make  a contribution to better understand on how universities, through social responsabaility, habe contributed to the development os human capital, building social capital, and how they may impact on local sustainable devolpment through vocational training.

KEYWORDS: University social responsability. Local sustainable growth. Realization of dreams and ideals individual and collective

– Carlos Augusto Fernandes Eufrásio- Chefe da Divisão de Responsabilidade Social da Universidade de Fortaleza

-Natália Fernandes Teixeira Alves- Estagiária do setor de responsabilidade social e estudante de Psicologia da Unifor

-Ana  Lorena Magalhães- Acadêmica do Curso de Psicologia da Unifor.

INTRODUÇÃO

Desde sua fundação, em 1973, a Universidade de Fortaleza (UNIFOR) vem conquistando prestígio entre as instituições de ensino superior do país por sua excelência em educação.

Sua história tem como marca o desenvolvimento social, educacional e cultural do estado do Ceará e da região Nordeste. A instituição possui como missão “contribuir para a realização de ideias e sonhos, formando profissionais de excelência, mantendo o compromisso com o desenvolvimento socioambiental, científico e cultural”.

É uma das poucas universidades brasileiras a inserir a variável responsabilidade social e ambiental como práxis pedagógica do ensino superior, no intuito de garantir acesso à saúde, à educação, à justiça, ao emprego e à capacitação da população de baixa renda.

 

A ideia de criação da Universidade de Fortaleza, concebida pelo industrial Edson Queiroz, não foi motivada meramente por estudos de mercado que revelavam a carência do sistema educacional do estado. A visão do fundador, Edson Queiroz, era provocar a mudança do status social e econômico de seus beneficiários, com efeitos positivos para as famílias e para a comunidade no processo de desenvolvimento da região.

Desde então, o ideal de seu fundador se materializou em um campus de 720 mil metros quadrados, com mais de 300 salas de aula e 230 laboratórios especializados e de informática. São cerca de 70 mil profissionais graduados e 7 mil pós-graduados. Dos 1.270 alunos iniciais, cerca de 25 mil compõem a população atual do corpo discente em seus 29 cursos de graduação e nove de graduação tecnológica executiva.

O corpo docente, composto de 1.200 professores, com mais de 80% de mestres e doutores, é responsável pela supervisão de centenas de projetos de pesquisa no domínio científico, tecnológico, artístico e cultural (GUIA UNIFOR, 2013).

  1. Responsabilidade social nas universidades

A responsabilidade social universitária no cenário brasileiro constitui-se temática emergente a partir das tendências delineadas pelas estratégias de marketing das instituições de ensino superior do setor privado, uma consequência direta da expansão da responsabilidade social empresarial (CALDERÓN, 2006).

As ações da responsabilidade social da universidade, tais como definidas pela Global University Network for Innovation (Rede GUNI), no Observatório de Boas Práticas Universitárias, expressam o compromisso da instituição com o tecido social do qual se constitui: desenvolvimento sustentável; valores, ética e formação da cidadania; acesso à universidade e equidade; apoio aos sistemas de serviço social e garantia social; cooperação e desenvolvimento comunitário; apoio a associações da sociedade civil; modelos institucionais (RIBEIRO, 2013).

Efetivamente, a partir de 2005, a responsabilidade social passou a ser uma das dimensões analisadas como instrumento de avaliação do Sistema Nacional de Avaliação (SINAES). Esse objetivo é desdobrado no artigo 3º da referida lei:

III – a Responsabilidade Social da instituição, considerada especialmente no que se refere à sua contribuição em relação à inclusão social, ao desenvolvimento econômico e social, à defesa do meio ambiente, da memória cultural, da produção artística e do patrimônio cultural (Lei nº 10.861, de 14 de abril de 2004).

Foram implantadas outras ações, como avaliação externa por meio do Exame Nacional de Avaliação do Ensino Superior (ENADE) e do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Esses instrumentos têm como prerrogativa a exigência de avaliações internas e externas, focando a qualidade da educação, que em várias situações pode estar relacionada às ações de responsabilidade das instituições de ensino superior.

Para Calderón (2006), é possível constatar que existe um fio condutor que perpassa a necessidade de estabelecer um novo contrato ou pacto social entre a universidade e a sociedade, tendo como norte o desenvolvimento humano.

Nesse sentido, Kliksberg (2006) defende a ideia de que a universidade deve incorporar em sua agenda, a ética do desenvolvimento, lutando pelo conhecimento da realidade, por meio da pesquisa séria e rigorosa dos grandes temas da pobreza e da desigualdade social que estão no cerne da vida cotidiana de grandes contingentes populacionais.

Ao realizar a análise, de um modo geral, do ensino superior no Brasil, pode-se afirmar que a responsabilidade social universitária constitui uma das exigências da inclusão social, do desenvolvimento econômico e da defesa do meio ambiente.

Entre as principais estratégias de gestão ambiental e de responsabilidade social que podem ser aplicadas às instituições de ensino superior são os projetos sociais em meio ambiente; educação; saúde; cultura; de apoio à criança e ao adolescente; em voluntariado e a imagem ambiental para fins de marketing.

Contudo, a melhor caracterização destas ações revela o compromisso das universidades com a sociedade como finalidade institucional e acadêmica e como meio do cumprimento da tríplice função universitária de: ensino, pesquisa e extensão (CALDERÓN, 2006).

A organização corporativa em torno de uma gestão responsável ainda constitui um movimento recente no setor educacional, entretanto, sua efetivação e universalização em território brasileiro são urgentes.

Este fato por si só já sugere a responsabilidade universitária como uma necessária práxis formadora de profissionais com forte formação ética e cidadã, e ao mesmo tempo passa a ser uma demanda mundial, como perspectivas de combate aos efeitos negativos da globalização. De um lado, a surpreendente obsolescência do conhecimento e das tecnologias e, de outro, a secular academia devem ser repensadas mundialmente quanto a suas missões institucionais.

A educação superior no Brasil tem acompanhado este movimento global de reflexão sobre as novas determinações e sobre o papel social; e vem instituindo uma série de medidas de flexibilização na gestão, na didática, nas metodologias e na função de democratização do acesso à ciência no ensino superior.

A promoção do ensino universitário social e ambientalmente responsável engloba, assim, a formação de indivíduos qualificados para a inclusão no mercado de trabalho e igualmente críticos, moralmente competentes, capazes de tomadas de decisões frente às questões éticas contemporâneas. A autossustentabilidade, mais do que um conteúdo curricular, deve compreender o foco sobre o qual as instituições projetam o raio de suas ações, de forma a fomentar o compromisso dos alunos com a sociedade, a vida e sua preservação (POMPEU, 2012).

Desse modo, envolve a concentração de esforços coletivos para a efetivação de uma nova formação humanística. O foco desta formação deve ser a inclusão social em consonância com a capacitação profissional, no equacionamento das demandas de desenvolvimento com sustentabilidade.

No Brasil, muitas instituições de ensino superior permanecem omissas diante da realidade econômica e social local e os desafios regionais e nacionais frente ao mercado global e à participação ativa na luta contra a exclusão social. No entanto, como em outros países, o setor universitário brasileiro começa a se organizar para esta nova realidade educacional.

Certamente, se não é a única solução para a grande incerteza que desafia o futuro das universidades, poderá ser um caminho de orientação que deve alicerçar a reestruturação da educação superior em direção ao crescimento com sustentabilidade.

Os projetos sociais e ambientais no âmbito da educação superior constituem-se enquanto eficientes estratégias de abertura de novos espaços de aprendizagem. Possibilitam a vivência e o desenvolvimento não somente de valores de cidadania, mas de conhecimento-técnico fundamentais à formação profissional no desenvolvimento de competências para acesso ao mundo do trabalho, como previsto nos pilares fundamentais da educação para o século XXI propostos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, UNESCO (DELORS, 1998).

Em outros termos, significa engajar-se com as demandas de desenvolvimento local ambientalmente responsável na formação de capital humano e social a partir da promoção do espírito empreendedor, respeito às normas de trabalho, proteção do meio ambiente, dos direitos humanos, e no engajamento na luta contra a exclusão social.

Nesse particular, o Brasil tem experimentado novas fórmulas de combate à pobreza e promovido esforços em direção à igualdade e a democracia enquanto ao mesmo tempo faz avançar a economia. Contudo, a complexidade social e política e a situação econômica apresentam enormes desafios na busca de uma saída justa e equitativa para o povo brasileiro.

            2.Projetos de responsabilidade social

O relacionamento da Universidade de Fortaleza com a comunidade em seu entorno prioriza investimentos na área de educação, cultura, meio ambiente e promoção da cidadania com foco na educação/formação profissional de jovens e adultos. Existem programas de voluntariado, tais como os projetos Jovem Voluntário e Cidadania Ativa, que oferecem aos moradores das comunidades carentes atendimento e acompanhamento em atividades lúdicas, educativas e sociais.

Os projetos sociais são realizados por alunos, professores e corpo administrativo, que articulam na prática a solidariedade, o voluntariado, o empreendedorismo e a consciência ambiental junto à comunidade, pela integração entre a educação e diversas áreas.

Como fruto de sua atuação social, a UNIFOR recebeu o Selo Instituição Socialmente Responsável 2012-2013 e 2014-2015 concedido pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES). O Selo Instituição Socialmente Responsável garante a Instituição como uma organização socialmente responsável e tem como objetivo certificar que a IES participou da campanha do Dia da Responsabilidade Social do Ensino Superior Particular e está verdadeiramente engajada com o ensino responsável.

Nessa direção, a UNIFOR implantou vários projetos de responsabilidade social e ambiental, dentre os quais se destacam:

Centro de Formação Profissional

O projeto oferta gratuitamente cursos profissionalizantes para pessoas de baixa renda. Todos os cursos são ministrados por funcionários ou alunos regularmente matriculados na Universidade de Fortaleza e que não possuam reprovação no histórico acadêmico. Desde sua criação, já foram qualificados mais de 26.000 mil pessoas.

Escola de Aplicação Yolanda Queiroz

Inaugurada em 1982, a Escola de Aplicação Yolanda Queiroz consiste em proporcionar educação gratuita às crianças da Educação Infantil até o quinto ano do Ensino Fundamental. A escola já alfabetizou milhares de crianças da comunidade do Dendê, uma das mais carentes que residem no entorno do campus, e atualmente tem 531 crianças matriculadas. A Escola Yolanda Queiroz é também campo de prática de estágio para alunos de todos os centros da UNIFOR.

Projeto Educação e Saúde na Descoberta do Aprender

Este projeto consiste na parceria da Fundação Edson Queiroz com o Instituto do Rim, o Instituto de Doenças Renais em Fortaleza e o Centro Integrado de Diálise. Desde 2000, o projeto proporciona a alfabetização de crianças e adolescentes, na própria clínica de tratamento, simultaneamente ao processo de hemodiálise.

As aulas são ministradas voluntariamente por alunos da universidade durante as sessões de hemodiálise. Concebido especialmente para o projeto, o conteúdo programático aborda noções de português, leitura, matemática e ludicidade.

Projeto Jovem Voluntário

Consiste na promoção de atividades voluntárias em prol das comunidades. Anualmente, centenas de estudantes de vários cursos da UNIFOR, motivados pela oportunidade de exercer papel ativo na solução de problemas reais da comunidade, integram voluntariamente este projeto. Foi criado em 2001, com enfoque voltado para a atenção lúdica a crianças, adolescentes e idosos que se encontram internados em hospitais conveniados com a Universidade.

O jovem voluntário recebe, ao final do período de participação, certificado válido em todo o Brasil, de acordo com a lei do voluntariado, como prestador de serviços voluntários dedicados à sociedade. O projeto acontece no Núcleo de Atenção Médica Integrada – NAMI, Associação Peter Pan, Lar Torres de Melo, Instituto Dr. José Frota, Hospital São José e Albert Sabin.

Escritório de Prática Jurídica (EPJ)

Criado em 2001, o EPJ foi idealizado com o objetivo de proporcionar a garantia constitucional de acesso à justiça à comunidade do bairro do Dendê, que possui uma elevada densidade populacional, assim como um significado número de pessoas abaixo da linha da pobreza, carente de recursos e de assistência social adequada, realizada por alunos dos dois últimos semestres do curso de Direito. Trata-se de estágio em duas categorias: simulado e real.

Essa possibilidade surgiu em decorrência de uma parceria entre a universidade e a Defensoria Pública do Estado do Ceará, formada por advogados concursados e remunerados pelo Governo do Estado do Ceará para dar assistência jurídica necessária àqueles que não dispõem de recursos para arcar com os honorários profissionais de um advogado particular.

            3.A Comunidade do Dendê e o Polo de Produção de Vassouras Pet

 

Hoje conhecido como Edson Queiroz, em uma homenagem ao empresário que construiu nas proximidades a Universidade de Fortaleza, na década de 1970, o local tinha o nome de Água Fria e abrigava ali diversas salinas e manguezais, como toda a região às margens do Rio Cocó.

No entanto, com o deslocamento de várias famílias, o que antes era uma região de sítios e chácaras, cujas boas partes das terras predominantemente pertenciam ao empresário Patriolino Ribeiro, rapidamente ganhou outra conformação urbana e passou a ser identificada como Favela do Dendê. Hoje muitos dos habitantes preferem o nome Edson Queiroz . A comunidade mais conhecida do bairro, a Favela do Dendê. Pode-se dizer que no bairro Edson Queiroz convivem lado a lado, a pobreza extrema e a riqueza, uma verdadeira desigualdade social, visto que além de abrigar diversos equipamentos importantes como o Centro de Eventos do Ceará, Fórum Clóvis Beviláqua, o Centro de Convenções e a Universidade de Fortaleza, a região abriga também condomínios e residências de luxo.

A comunidade do Dendê conta com boa parte de todos os habitantes do bairro. A área limita-se com a Universidade de Fortaleza e está compreendida pelas margens do Rio Cocó, A maioria das famílias que hoje mora no local chegou na década de 1970, após serem removidas das favelas Verdes Mares, Dom Luiz, Cervejaria Brahma, Cidade 2000, Hospital Geral de Fortaleza e Praia do Meireles.

A Universidade de Fortaleza acredita que, através de projetos de responsabilidade social, verificam-se efetivamente os benefícios proporcionados à comunidade e consequentemente observa-se uma maior satisfação dos envolvidos na ação comunitária, recuperando muitas vezes a dignidade humana.

A inauguração do polo foi um marco na história da comunidade, que vinha participando, por meio da Unifor, de oficinas de reciclagem. Os moradores aprenderam a fabricar vassouras de forma artesanal, utilizando como matéria-prima garrafas pet. As oficinas foram fruto de visita realizada a Tauá em maio 2014, quando a Universidade de Fortaleza firmou um termo de cooperação técnica com a Prefeitura daquele município cearense com o objetivo de desenvolver pesquisas e capacitar profissionais, além de compartilhar experiências de convivências comunitárias. “Durante a visita, um dos projetos que mais chamou a atenção do Dr. Aírton Queiroz foi o processo de reciclagem que eles têm lá, em especial a reciclagem da garrafa PET, narra o vice-reitor de Extensão da Uniflor, prof. Randal Pompeu.

. Como incentivo para o projeto, a Fundação Edson Queiroz reformou as instalações do Centro Comunitário do Dendê, que agora serve de espaço para realização do trabalho e de outros cursos realizados pela Unifor para a comunidade.

“A Universidade, desde sua criação, é envolvida com a questão da responsabilidade social e realiza vários projetos. As instalações do Conselho Comunitário, agora reformado, é um espaço muito importante, um local para implementar diversos projetos”, aponta o prof. Randal Pompeu.

De acordo com o prof. Carlos Eufrásio, o novo local possibilitará, além da produção de vassouras, a realização de cursos demandados pelos próprios moradores.“A relação entre a comunidade e a Universidade sempre foi estreita. Neste local funcionava a sede do conselho comunitário e os moradores apresentaram uma proposta de reforma à Universidade e o chanceler Airton Queiroz de pronto aprovou. Isso vai viabilizar que a Universidade possa ofertar mais cursos de qualidade voltados para a demanda local, constituindo ainda em um espaço de vivência democrática e de empoderamento da própria comunidade”.

“Desde seu início, a Universidade vem prestando um serviço de atenção social na comunidade do Dendê. As novas instalações do Conselho, que  inaugurado em 2013, é uma iniciativa da própria comunidade e a Unifor ajudou a viabilizar o projeto. Reformamos a parte física e vamos continuar aqui oferecendo cursos e ajudando a comunidade”, pontua a reitora Fátima Veras.

“Nós acreditamos que, com a implantação da fábrica de vassouras e de mais grupos de formação através de oficinas de qualificação, podemos desenvolver melhor a mão de obra dos moradores. O retorno não vai ser só pessoal, vai ser para toda a comunidade. A parceria com a Unifor é uma das mais ricas que temos na comunidade do Dendê”, festeja Dona Toinha, líder comunitária e Presidente do Conselho Comunitário do Dendê.

4.Aonde os sonhos podem chegar: Polo de produção de vassouras de garrafas “pet” da Comunidade do Dendê

4.1 PRÁTICA EFICAZ DE RESPONSABILIDADE SOCIAL

 

4.1.1 Histórico da Prática Eficaz

Tal prática surgiu a partir da construção da sede do centro comunitário de Defesa Social Celina Queiroz, onde está hoje instalado o polo de produção de vassouras pet. Nasceu, então, a partir da iniciativa do Dr. Aírton de Queiroz, em maio  de 2014, com o objetivo e incentivo de gerar nos moradores da comunidade a ideia de apropriação do espaço e incentivo ao trabalho para que no futuro breve os mesmos pudessem usufruir do espaço com o trabalho produtivo e viessem a conseguir acrescentar na renda mensal um valor extra para a melhoria de vida dos integrantes dos projetos.  Até julho de 2014 o Conselho Comunitário funcionava, precariamente, onde funcionara uma Delegacia de Polícia, constituindo um ambiente precário e degradante.

Com certeza as novas instalações do Conselho Comunitário reformado e totalmente equipado pela Universidade de Fortaleza, aliado ao início da implantação do Polo de Produção de vassouras pet, constituíram ganhos significativos para a Comunidade. Entretanto, verificamos dentre os envolvidos com a produção de vassouras um certo temor diante dos novos desafios. Constatamos que não bastaria o suporte e o conhecimento técnico para transformar aquele espaço de produção de vassouras em um grande polo autossustentável. Fazia-se necessário a implementação de um projeto interdisciplinar que pudesse trabalhar questões fundamentais como autoestima, projetos de vida, associativismo, liderança e cooperativismo.

Foi assim estruturado um curso de 02 (dois) meses (setembro e outubro de 2014), com carga horária semanal de 40 horas, realizado no turno da noite focado no Desenvolvimento de Habilidades  de Liderança e de Cooperativismo e com objetivos específicos:

  1. Desenvolver habilidades de liderança e de articulação cooperativista;

2.Facilitar o conhecimento do projeto em que os mesmos estão inseridos, promovendo a ressignificação dos mesmos;

  1. Introduzir o espírito de cooperativismo, empoderando o trabalho coletivo e despertando a consciência comunitária.

Mas, afinal, o que teríamos de fato a acrescentar àquela realidade? Deveríamos nos valer de nossos pressupostos e encontrar explicações muito bem fundamentadas em nossa Ciência Psicológica? Até que ponto tais explicações teriam alguma serventia?

Observamos  que as psicologias no geral utilizam metodologias tradicionais que partem de problemas previamente situados pelo investigador e por este mesmo, supostamente, solucionados, baseiam-se em estruturas científicas clássicas, realizam análises unidimensionais e comunicam-se apenas com o meio acadêmico.

Já o método na Psicologia Comunitária entende que sujeito e objeto não podem permanecer separados. Tem como base primordial à interação entre o psicólogo e a comunidade. Entende que há um olhar juntos, um compreender juntos, um fazer juntos, sem imposição de especialista sobre o morador.

Assim, iniciamos o processo de inserção nos modos de vida comunitário o que implicaria em abertura a vivenciar o pulsar da atividade comunitária em seu cotidiano: expressões, histórias, sonhos, projetos de vida, simbologias, etc. Em um mergulho naquele mundo, sem apreensões técnicas ou metodologicamente planejadas, deixando-nos, tão somente, encharcar-nos de seu conteúdo.

E assim, traçamos ao caminhar o caminho de nossa atuação a cada  encontro  que tínhamos  com os moradores.

Foi somente a partir desse contato que pudemos desenvolver um conhecimento de fato pertinente àquele lugar e ao grupo com o qual nos reuníamos. Não se trata de aniquilarmos o saber científico, mas encontrar um espaço dialógico entre os saberes.

Assim surgiu o projeto de extensão em referência.

4.1.2 Objetivos da Prática Eficaz

          Um dos objetivos desse projeto é desenvolver as habilidades de liderança e de cooperativismo como pressuposto à produção de vassouras de garrafas pet como um grande polo produtivo comunitário.

Assim, foi elencado  como objetivo geral o estudo teórico e observatório do processo grupal de modo que venha a compreender como ocorre a participação no processo de produção favorecendo a inclusão social e produtiva. Acrescenta ainda que tem como foco buscar a aplicação e dinâmica com o projeto de vida.

Já como objetivos específicos, determinou observar a construção do processo grupal e analisar como o processo grupal influencia na constituição dos sujeitos e contribui para a inclusão social.

Entretanto, coube aos estudantes de psicologia, facilitadores do grupo, promover ações de desenvolvimento pessoal e de formação para a vida desses integrantes em destaque, de maneira que “para essa construção é necessária a interação com a realidade objetiva, com o social e suas implicações” (MANDELLI, 2011, p. 50).

Então uma das formas de aplicar em prática as mudanças na vida dessas pessoas, seria o incentivo, a partir de uma orientação profissional (OP) junto ao Projeto de Vida (PDV), para o ingresso no mercado de trabalho a partir de escolhas realistas e contextualizadas diante suas condições de vida, de maneira que venha a possibilitar ações críticas e reflexivas que virão a transformar o indivíduo e a sociedade.

Importante ressaltar, que uma das metas da Unifor é fazer com que a comunidade se aproprie do espaço que lhe foi dado, fazendo dele um verdadeiro polo de produção autossustentável.

 

4.1.3  Público Alvo Atingido  

Em nossos primeiros encontros, percebemos que havia uma alta expectativa sobre o conhecimento que teríamos a oferecer de imediato à comunidade. O grupo é constituído por mulheres em sua grande maioria, sendo 5 com idade entre 23 a 30 anos, 2 homens com idade de 20 e 21 anos e 13 de meia-idade (31 a 45), todos com escolaridade mínima (ensino fundamental incompleto).

Ficou ainda acordado, observando a legislação em vigor, que não é permitida a participação de menores de 18 anos, pois durante o processo de produção temos etapas em que são usados objetos cortantes, água quente e fogo, tidas como atividades periculosas.

Portanto todos os participantes pertencem à classe social de risco e vulnerabilidade, de modo que as particularidades de cada constituição subjetiva sejam peculiares, entretanto comuns, quanto aos aspectos sociais, biografia e vivências da comunidade.

4.1.4. Descrição das Atividades Implantadas

Desde 2001, os 27 mil moradores da comunidade do Dendê lutavam para conseguir uma sede própria para o Conselho. Com a mudança da delegacia veio a oportunidade. Uma das antigas celas abriga, agora, a fábrica de vassouras e de outros utensílios que serão confeccionados a partir da reciclagem de garrafas pet. O curso já tem 20 alunos matriculados.

O espaço conta ainda com duas salas de aula, cozinha, um escritório e uma área coberta, onde serão realizadas as reuniões do Conselho e aulas de dança, capoeira e música.

Antônia Agostinho de Souza, a dona Toinha, de 74 anos, líder comunitária da área desde 1978, comemorou a novidade. “Eu não estou andando, eu estou flutuando por causa de tudo o que eu estou vendo e do que está acontecendo aqui”, disse.

Diante da alegria de dona Toinha, a Primeira-dama ressaltou que é a luta de mulheres como ela o que consegue mudar a realidade e o futuro de comunidades. “Tenho certeza de que a dona Toinha vai conseguir multiplicar os recursos e investir muito bem o que a Prefeitura vai destinar ao Conselho Comunitário de Defesa Social Celina Queiroz. Ela é muito querida, tem muito serviço prestado e multiplicamos a rede do bem através do apoio dado a pessoas determinadas como dona Toinha. São trabalhos assim que vão modificar o futuro”, afirmou Carol Bezerra.

A reitora da Unifor, Fátima Veras, falou sobre a importância de a comunidade receber um espaço como o Conselho e transformá-lo em um polo de reuniões e discussões sobre família, violência, trabalho e, principalmente, para abrigar crianças e jovens. É o caso dos soldados Milanês, Denis e Ângelo, do Ronda do Quarteirão, que agora vão ter um espaço maior para ministrar as aulas de violão para 70 crianças do bairro.

Cumpre ressaltar que em maio de 2014, 20 (vinte) pessoas da comunidade já haviam participado da I oficina de produção de vassouras com garrafas pet. Com a inauguração da nova sede do Conselho, foi iniciada a produção das vassouras. Em seguida, viu-se necessário a implementação de um projeto interdisciplinar que pudesse trabalhar questões fundamentais como autoestima, projetos de vida, associativismo, liderança e cooperativismo que se mostravam fundamentais diante dos novos desafios.

Uma das necessidades identificadas foi de uma intervenção na área de psicologia comunitária. E assim foi definida toda uma programação com  encontros semanais com o grupo, com duração de até 2h. O momento inicial foi  de escuta, com intervenções também que se mostraram necessárias. Para exemplificar, uma das dinâmicas utilizadas, trago a da montagem de um fanzine que  teve o objetivo de tratar com o grupo a reflexão de “quem são eles” e “o que querem ser daqui a 5 anos”, “quais seus sonhos individuais e coletivos”, dentre outras questões. As intervenções foram trazidas de formas lúdica e indireta para percebermos o perfil e os desejos a curto e longo prazo dos participantes.

5. LIDERANÇA

As ações de responsabilidade social da Unifor referem-se ao desenvolvimento e aplicação de projetos, bem como ao conjunto de ações  motivadas pelos princípios de urgência da inclusão social, da igualdade de oportunidades e da qualidade de vida.

5.1 Equipe Envolvida com a Prática –

-Prof. Carlos Augusto Fernandes Eufrásio- Chefe da Divisão de Responsabilidade Social, como professor-orientador.

-Natália Fernandes Teixeira Alves- Estagiária do setor de responsabilidade social e estudante de psicologia.

-Ana  Lorena Magalhães- acadêmica do Curso de Psicologia da Unifor.

5.2 Participação da Alta Direção

Desde sua criação, a Universidade de Fortaleza está focada no social.A cada ano a Unifor se consolida como Instituição Socialmente Responsável, constando em seu Planejamento Estratégico dotações orçamentárias crescentes para grandes investimentos em projetos de responsabilidade social. Resta claro o compromisso social da Unifor, a partir de sua Gestão Superior de integrar atividades de ensino, pesquisa e extensão com vistas às demandas da sociedade.

6. FOCO

Compreender a Universidade de Fortaleza implica na constatação de uma rede de ações estruturadas cujo resultado é o pleno desenvolvimento humano, onde é possível vislumbrar a participação da comunidade nas iniciativas sociais, impingindo a sociedade a agir em prol da população de baixa renda.

  • Docentes/Funcionários – A equipe diretamente envolvida com o projeto (corpo docente e discente) trabalha em sinergia das atividades acadêmicas com as necessidades da sociedade..
  • Administrativo – A Unifor oferece todo suporte administrativo para a execução deste projeto e de outras ações de responsabilidade social.
  • Econômico-Financeira – De acordo com os objetivos institucionais da Universidade e segundo Planejamento Estratégico definido para 2014, em sintonia com o Plano de Desenvolvimento Institucional, foram assegurados recursos para reforma do Conselho Comunitário da Comunidade do Dendê, bem como implantação do Polo de Produção de Vassouras e do Projeto interdisciplinar ora em foco.
  • Acadêmico – Cuida-se como prioritário na Unifor a inclusão do aluno como sujeito ativo, transformador de mudanças. O processo de ensino e aprendizado supõe, dessa maneira, a participação ativa do acadêmico em seu próprio processo de formação, que ultrapassa a atividade curricular.
  • Comunidade –A Unifor define suas atividades tomando como premissas: prestação de serviços à comunidade, sem que tais ações se confundam com assistencialismo. A urgência por práticas inclusivas forma a ideia de emancipação cidadã aliada à necessidade por ações sociais efetivas. Afinal, a integração de pessoas, principalmente aquelas que vivem sob a circunstância do risco social evita refúgios assistencialistas para trabalhar mecanismos de inserção definitiva do indivíduo pela edificação da cidadania e aprimoramento profissional.

7. RESULTADOS

Um teórico que descreve muito bem as mudanças efêmeras do cenário contemporâneo é Bauman (2001) que vem afirmar que vivemos num mundo em que as relações são imediatistas e sem nenhum vínculo, causando uma propagação da individualidade sem deixar resquícios sobre a coletividade. Hoje a lógica é da volatilidade impedindo planejamentos a longos prazos fazendo com que os sujeitos vivam cada dia de cada vez, quase que sem planejar o dia de amanhã, pois tudo se tornou fragilizado e errático.

Tendo em vista a descrição do contexto da contemporaneidade e do incentivo à inclusão do mercado de trabalho, sendo esse um grupo pertencente a uma classe econômica desfavorável, os facilitadores das intervenções  trabalharam de acordo com a realidade local e de forma que promova a conscientização demonstrando as fragilidades e desenvolvendo as potencialidades dos integrantes para superarem os desafios que surgirão e capacitá-los para reconhecerem como agentes de sua vida.

Como forma de contextualização da constituição do grupo e de intervenção, o projeto de vida foi o foco para desdobrar a reflexão sobre a construção do futuro, de modo a “promover a busca sobre si, de sua história, dando-se conta de sua condição presente, das oportunidades e exigências do mundo do trabalho, relacionando-as com suas necessidades, como subsistência, consumo e ocupações” (MANDELLI, p. 50, 2011). O grupo passa a construir o seu projeto de vida em paralelo ao seu projeto profissional, pois exploram os seus sonhos, desejos e determina metas para o futuro.

O projeto é a antecipação no futuro dessa trajetória e biografia, na medida em que busca, através do estabelecimento de objetivos e fins, a organização dos meios através dos quais esses poderão ser atingidos. (….) O projeto e a memória associam-se e articulam-se ao dar significados à vida e às ações dos indivíduos, em outros termos, à própria identidade (VELHO, 1994, p. 101, apud MANDELLI, 2011, p. 54).

Ressaltamos que a elaboração do projeto de vida junto ao grupo em estudo, considerando que contempla uma dinâmica sócio-histórica e contribui para o processo de construção das identidades individuais e grupais, foi fundamental  para a integração da equipe.

Portanto, o projeto de vida e identidade se articulam numa “tentativa de construirmos juntos com os jovens sua identidade profissional, pensando-a como um processo que acontece no decorrer da vida e que, fundamentalmente, necessita de meios para ser alcançadas” (MANDELLI, 2011, p. 54), sendo essa uma das contribuições da intervenção psicológica desse estudo. E que através do projeto de vida pode-se surgir dados relevantes sobre projeções futuras como “profissão, constituição familiar, estudo e preparo profissional, realização e felicidade, viagens, amigos, aquisições de bens materiais e, por fim, melhoria do mundo” (MANDELLI, 2011, p. 55).

Então, uma das dinâmicas utilizadas (vide Anexo II) como forma complementar do Projeto de Vida, foi a elaboração de um Fanzine, uma forma lúdica de ouvirmos dos integrantes suas questões e expectativas, onde se colocariam e, assim, falariam de suas vidas de forma simples e natural.

Utilizamos, folhas de papel-ofício, canetinhas, revistas, tesouras, lápis de cor, cola, foram essas as ferramentas para a intervenção. O primeiro momento foi de susto para os participantes, pois não se viam na condição de voltar a serem crianças. E no segundo momento, foram se entrosando e tomando conhecimento para o sentido daquele momento.

A opção em trabalhar com a ferramenta do fanzine foi crucial, porque, assim,  poderíamos adaptar a demanda de cada participante, independente dos mesmos serem alfabetizados ou não. A margem da ilimitação da criatividade foi entoada para que os mesmos tivessem a liberdade para fazer o que quisessem como colagens, desenhos, textos, pinturas, ou seja, o que a criatividade demonstrasse. No decorrer da intervenção tiveram poucas dúvidas, algumas risadas no processo em si, e concentração por parte de todos, pois demonstraram seriedade para com o trabalho e motivação para finalizá-lo.

Na conclusão da dinâmica, reunimos todos os participantes numa grande roda e foi solicitado que cada um mostrasse a sua obra de arte e história de vida para o coletivo e que explicasse o que significavam os simbolismos expressos em cada construção.

O primeiro a falar sobre o seu projeto de vida aconteceu de forma espontânea e foi escutado com muita atenção e respeito por todos. Ao final do discurso do primeiro que se pronunciou, todos aplaudiram o projeto de vida do outro e, assim, a partilha fluiu com maior espontaneidade.

No decorrer das apresentações das construções individuais algumas pontuações foram feitas sobre os projetos de vida que estavam sendo explorados. Então sugestões como a inclusão no mercado de trabalho foram discutidas, de modo que a indicação estivesse ao porte do grupo, sendo orientado a procurar pelos recursos de políticas públicas para o seu aperfeiçoamento.

Nesse momento de verbalizar sobre o projeto de vida individual, existiu uma fusão com o coletivo que foi bastante interessante, pois algumas ideias eram comuns com outras, e as facilitadoras trouxeram a fortaleza e firmamento do grupo para se unirem e buscarem, quem sabe, e realizarem juntos os projetos de vidas coletivos.

Ao final houve o acolhimento do projeto de vida de cada um, foram feitos agradecimentos pela participação de todos e teve um breve incentivo para  buscarem motivação e determinação diante as construções colocadas.

Percebemos, depois de tal intervenção, o quão o projeto de vida e o trabalho que vem sendo feito com os integrantes, produtores, vem ajudando-os a dar um sentido em suas vidas e com boas expectativas em relação ao futuro.. Um dos integrantes do grupo ressaltou à época: “antes do Polo suas vidas eram pacatas”, não tinha nada pra fazer em casa”, colocando “melhor mesmo é estar no polo fazendo vassouras, porque quando todas tiverem prontas ganharemos um dinheiro a mais.”

Um dia, após uma das intervenções realizadas L.A. V, participante do grupo trouxe-nos seu depoimento: “fiz o curso de reciclagem na primeira vez que a Universidade ofereceu. Gostei muito e aprendi muitas coisas. O que a gente quer é que possamos produzir bastante através da fábrica. Acho que a partir daqui vão surgir novas oportunidades de emprego para as pessoas. Outros cursos vão ser realizados, não só de reciclagem. Através da Unifor conseguimos reformar este espaço e vamos ter, além da fábrica de vassouras, cursos como corte e costura, doces e salgados e outras oportunidades de renda para os moradores. Também posso sonhar e vou lutar pela realização de meus sonhos”.             Conclui-se que, ao realizar projetos de responsabilidade social, a Universidade de Fortaleza contribui com o desenvolvimento sustentável da sociedade e a formação de cidadãos conscientes, amenizando a desigualdade social e promovendo a inclusão social.

  1. Formas de Avaliação

Considera-se que esse projeto se encaixa no empreendedorismo social, entendendo-o como um movimento segundo o qual o pensamento criativo e inovador é aplicado à resolução de problemas sociais como o desemprego.

  1. b) Cumpre ressaltar que após a conclusão do curso Desenvolvimento de Habilidades de Liderança e Cooperativismo, os membros da comunidade demonstram motivação e interesse quanto à produção de vassouras. Muitos indicadores pesquisados apresentaram bons índices de concordância, percebendo-se que todos estão relacionados ao objetivo inicial do projeto de oferecer empregabilidade e desenvolvimento a estes profissionais.
  2. c) Indicadores como produtividade, satisfação dos clientes, captação de clientes, bem como indicadores de sustentabilidade estão sendo levantados e trabalhos pela equipe, principalmente por professores de Engenharia de Produção do Centro de Ciências Tecnológicas da Unifor, estando em fase de finalização projeto executivo do Polo de Produção de Vassouras Pet.

9. LIÇÕES APRENDIDAS

Percebendo, então, que os grupos estão em constante transformação, o referido grupo se encaixa melhor no grupo ao qual Silva Lane (2001) traz como aglutinado, que é um grupo no qual há um líder que propõe ações conjuntas e do qual os membros esperam soluções. Mas tendo à vista dos facilitadores, buscam tornar um grupo independente, que segundo Silva Lane (2001), é um grupo com liderança amplamente distribuída, pois o grupo já acumulou experiências e aprendizagens.

Também foi notado o quanto o grupo está empolgado para vender vassouras e, assim, ganhar dinheiro, entretanto não produziram o suficiente para vender e isso tem afetado o processo grupal, pois os participantes estão ficando “desanimando” para produzir e para comparecerem nas reuniões, isto afetando, até, nas relações entre eles. Mas os facilitadores trazem sempre, o processo natural da constituição do grupo que “Seria processo de produção o grupo se organizar, assumir papeis, realizar tarefas, em outras palavras, seria se produzir como grupo” (LANE, 2001, p. 9). Isto para tirá-los do foco do vender e colocar na produção, que o resto seria consequência.

Para qualquer ação que venha a se implicar no enredo da condução do grupo é preciso ter por base que o grupo assistido pertence à comunidade do Dendê, portanto, sendo uma comunidade de classe econômica desfavorecida na cidade de Fortaleza. Então as intervenções e orientações devem ser pautadas nas condições realistas a que o grupo pertence.

Desse modo, tratamos de um projeto social que possibilita aos integrantes a se manifestarem como atores sociais e protagonistas de seu processo educativo capazes de causarem mudanças nas condições presentes e futuras da sociedade e nas suas vidas.

Uma das formas que possibilita as mudanças no panorama existente do grupo é a inserção dos integrantes num trabalho produtivo, ou seja, no mercado de trabalho. Pois parte-se da compreensão de que o trabalho é uma ferramenta de constituição subjetiva e em paralelo auxilia o sujeito a construir e transformar a sociedade.

Diante dos resultados obtidos, é compreendido que as expectativas acerca da construção individual e coletiva foram satisfatórias diante toda a relação processual de construção. Visto que, está sendo muito oportuno as intervenções e encontros, pois os integrantes do grupo vêm vivenciando mudanças em suas vidas pessoais, sociais, ambientais e profissionais.

É importante, também, ressaltar que antes dos encontros semanas com os alunos da psicologia, vários projetos foram colocados na comunidade e não tiveram êxitos, não “iam para frente”, então, com a construção do polo, com uma preocupação da Universidade de Fortaleza fazer com que dê certo e financiando custos, e a preocupação dos alunos com a comunidade e integrantes do polo, a produção de vassoura continua a funcionar, onde os produtores já estão vendendo as vassouras e ganhando uma renda a mais.

9.1.   AÇÕES DE CONTINUIDADE

Então como o grupo e a produção de vassouras tende muito a crescer  se continuar o desempenho e a produção do produto, outras nuances são adequadas para ser estudadas e aprofundadas mais adiante, quando passar a existir uma relação de cooperativismo entre o grupo, assim como uma relação administrativa e econômica sobre a estrutura que se formara.

Então trazendo essa perspectiva futura de empreendimento e relação comunitária, temas como “economia solidária” poderá ser investida como pesquisa para agregar e desenvolver as potencialidades e apropriação do espaço por aqueles que desenvolvem a produção das garrafas.

Trazendo o trabalho realizado até esse momento, o grupo  de psicologia contribuiu  para a constituição do grupo e as dinâmicas relacionais imbricadas na sua convivência. Questões estudadas na teoria sobre o processo grupal e projeto de vida foram esclarecidos à medida que os encontros e vínculos tomaram corpo.

Resta agora ao Conselho Comunitário do Dendê envidar esforços  para o necessário empoderamento do projeto de produção de vassouras de garrafas “pet”, cabendo a Universidade continuar dando o suporte técnico e orientação que se faça necessário durante todo o processo produtivo. E como  assevera Eduardo Galeano, a “utopia” serve para nos fazer caminhar. E este não é um projeto utópico, pois a trajetória de lutas da comunidade  fortalecerá a cada dia o Polo de Produção de Vassouras Pet, de forma a que como cidadãos  lutem para concretização de seus projetos de vida, no âmbito pessoal e coletivo.

  1. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

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Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Fanzine

Acesso: 01.12.14

SANTOS, Caroline. Capital social e capital humano: subordinação ou independência? Uma análise a partir do estudo de caso dos Conselhos Municipais de Macaé e Resende. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Ciências Econômicas da Universidade Federal Fluminense para a obtenção do Grau de Mestre em Economia. Niterói 2006

TEIXEIRA, Anísio. Ensino superior no Brasil: análise e interpretação de sua evolução até 1969. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1989.

 

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